segunda-feira, 17 de julho de 2017

O dia em que Mina jogou mal - e trombou comigo na rua

Jogo acabado, subi a Rua Caraíbas em direção ao bar "O Sobrado", para tomar uma cerveja enquanto esperava minha mulher decidir onde iríamos almoçar. Por lá, entre uma e outra IPA, encontrei amigos. Saí com duas conclusões acerca do 4 a 2 sobre o Vitória: jogamos mal, mas ganhamos. E Mina fez sua pior partida pelo Palmeiras. Esteve irreconhecível.

Despedi-me dos amigos e, com um copo na mão, continuei caminhando pelo bairro até a Desembargador do Vale, uns quatro quarteirões acima, onde marquei de me encontrar com a Carol. Escolhi uma sombra e parei em frente a uma cantina italiana com cara de requintada. Um desses novos empreendimentos para a população mais abastada que vêm ocupando os prédios de alto padrão que tomam o lugar dos charmosos sobradinhos da Vila Pompeia a passos largos.

Lá estava eu, bem tranquilo, tomando minha terceira cerveja, de camisa, boné e jaqueta do clube, quando vi duas BMW X5, uma branca e uma preta, se aproximarem. As duas tinham insulfilms nos vidros da frente, o que me deixou com uma certeza: são carros de jogadores de futebol. Quem vive no bairro já se acostumou a vê-los transitar por ali, desde os anos 1990, quando os centros de treinamento de Palmeiras e São Paulo, no bairro vizinho da Barra Funda, foram inaugurados. E logo, também pensei: devem ser dos gringos.


Do carro branco, primeiro desceram mulheres e crianças. Uma morena alta falava em espanhol rápido com um garotinho bem pequeno que vestia uma camisa 12 do Palmeiras e o nome "Papá" às costas. Eram a mulher e o filho de Borja. Não demorou para o centroavante descer do carro e, muito tímido, entrar rápido no restaurante.

Fiquei tão atento ao que acontecia no carro da frente que parei de olhar para o carro de trás. De repente, quando olhei, literalmente trombei com Yerry Mina, que descia da BMW escura. Mandei um "perdón", em espanhol rápido, e deixei o caminho para ele passar. Mas Mina me deu um semi-abraço e mandou em portunhol:

- Hola, amigo, obrigado pelo apoio de você.

Mina fez seu pior jogo pelo Palmeiras no domingo. Tomou duas bolas no meio das pernas e quase entregou um gol ao tentar proteger a saída de uma outra pela linha lateral, que não saiu e terminou com Neilton cara a cara com Prass no gol norte - o chute saiu pelo lado.

- Hola, Yerry, estas jugando bien, no? - foi o que consegui falar na hora, ainda não refeito do susto de trombar com ele.

- Gracias, gracias. Estamos todos, estamos todos - me disse ele, mentindo. Ele também está vendo o Egídio jogar. Ele também viu o Dudu errar tudo até acertar o pé no primeiro gol. Ele também viu Prass e Dracena se atrapalharem num "deixa que eu deixo" em uma bola recuada. E está vendo o time com uma dificuldade monstruosa em entrar nas defesas adversárias.

Eu queria perguntar que cazzo ele havia tentado fazer naquele lance, ou porque tinha jogado tão mal. Mas ele era tão simpático, estava indo almoçar com a família. Mesmo assim...

- Y que tava pasando, Yerry? Por que estaván jugando tan mal? - não singularizei a pergunta.

- Estavamos en una caída, pero ahora estamos subindo otra vez, estamos subindo otra vez - afirmou ele, com o espanhol cantado e sem pronunciar os "S" entre consoantes, tão característico dos colombianos, fazendo gestos de subida e descida com as mãos.

- Tá bien Yerry. Y mira, tenemos que ganar la Libertadores e de Corinthians en el segundo turno, eh? - mandei na lata. Buen Almuerzo, me despedi, rindo. Já fazia uns minutos que Borja e família haviam entrado.

- Si, si, y vamos a ganar, vamos a ganar - me disse ele, punhos cerrados.

Dei risada. Se ainda fosse repórter, certamente já teria pedido mil vezes aos assessores do Palmeiras para entrevistar Mina, que considero, de muito longe, o melhor jogador do time. Aliás, toda essa "pauta" seria muito legal de se fazer. Em especial no Diário de S. Paulo: as duas famílias juntas e amigas, almoçando num domingo pós-jogo em uma cantina italiana da Pompeia. Poucas coisas são mais "Palestra" do que isso. Mas eu era só um palmeirense semi-bêbado no meu bairro, falando com o melhor jogador do elenco, enquanto minha mulher não chegava.

De repente, um grito vem da direção da porta da cantina:

- Eh, acredita em nós, acredita em nós, tá? - disse Mina, batendo no peito, com a mão fechada.

- Si, acredito siempre - respondi.

E acredito, mesmo.

7 comentários:

  1. Se a gente acreditava naquele elenco tenebroso de 2012 ia ser campeão (E foi) e ia escapar da desgraça (Não deu) e acreditou naquele arremedo de time de 2014, obvio que acreditamos neles. Até o fim

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  2. Como a saída da folha te fez bem, Diego.
    Ainda não conhecia o teu blog. Que venham mais textos destes... ����

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  3. Sensacional, Diego... simplesmente sensacional!!!

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  4. Em prantos... parabéns...Eu acredito !!! Sempre !!!

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