terça-feira, 29 de novembro de 2016

Somos todos jornalistas

por Diego Iwata Lima

Minha lembrança mais antiga de um jogador com a camisa do Palmeiras é uma imagem do Mário Sérgio.

Era noite. Meu pai e eu caminhávamos em direção ao Palestra Itália e passamos em frente a uma banca que ficava na esquina da Turiaçu, hoje Palestra Itália, com a Diana. Calculo que essa lembrança seja de 1984, quando eu tinha 3 ou 4 anos, dependendo do mês. Lá estava ele: barbudo, mal encarado, meio careca, um tanto velho, estampado em um jornal.

Sempre foi assim para mim. Esporte e jornalismo juntos. Foi por não ter talento para viver da bola que decidi viver de escrever sobre ela, embora tenha demorado alguns anos, depois de formado, para assumir esse desejo.



A Cásper Líbero não foi uma escolha ao acaso. Era o prédio que fazia cenário de fundo para as festas de títulos dos clubes paulistas. Local de chegada da São Silvestre. Endereço da TV Gazeta, onde o Roberto Avallone comandava o Mesa Redonda nas noites de domingo e falava do Palmeiras em todos os blocos - com uma pitadinha de Palmeiras no bloco final.

A tragédia de Medellín, que matou a delegação da Chapecoense, me atingiu nas duas paixões. Matou os jogadores que eu queria ter sido e cujo ofício sempre admirei. Matou os colegas da profissão que abracei. E, entre eles, representando os dois mundos, estava justamente o Mário Sérgio, que se tornara comentarista depois de ser craque jogando e de uma carreira de altos e baixos como técnico de futebol.

Meu primeiro chefe no jornalismo, Márcio Venciguerra, da finada Gazeta Mercantil, sempre me dizia que o jornalista só era notícia se matasse a mocinha, como fez o Pimenta Neves. Mas, como disse Galvão Bueno na edição especial do Jornal Nacional que homenageou os mortos no acidente, se é verdade que o jornalista esportivo depende do atleta para ter o que dizer, também é verdade que, sem o relato, não há feito que se conheça.

Sim, somos todos Chape. É muito triste ver uma equipe de jogadores e profissionais de futebol morrer no auge da história de seu clube, tão cheios de sonhos e futuro. Mas choro na mesma medida pelos ótimos colegas de profissão que também partiram.

Choro pelo gol "pra explodir" do Deva Pascovicci, de quem fui fã desde a época do Sportv e que conheci nos corredores da CBN quando tive a honra de ser convidado para comentar jogos.

Pelas opiniões ácidas do Mário Sérgio, o "comentarista calibre 38", como o chamava Silvio Luiz, em alusão à mania dele de andar armado na época de Band.

Pelas informações transmitidas com precisão e calma pelo Victorino Chermont. E pelas vidas interrompidas de outros 17 profissionais que estavam naquele avião preparados para contar os feitos da Chapecoense.

Porque também faz História quem sabe contar histórias.

Um comentário:

  1. Belo texto! Costumo dizer que o jornalista é um contador de histórias e, quando elas são recheadas de emoção, se tornam ainda mais atraentes, de leitura fácil. Somos todos jornalistas!

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