quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Assunção e Valdivia: O errado certo e o certo errado

A entrevista coletiva de despedida de Marcos Assunção, na segunda-feira, 7 de janeiro, foi um dos momentos mais esquisitos da minha carreira como jornalista. Por alguns instantes, foi difícil equilibrar o ceticismo compulsório da profissão com o sentimento, digamos, humanitário, de ver um jogador de futebol genuinamente triste por deixar um clube. É duro ser demitido de um emprego de que se gosta muito. No futebol, é certamente ainda mais complicado, devido a todos os tipos de paixão que envolvem o trabalho, independentemente do dinheiro que se ganhe com ele.

É no mínimo curioso que a coletiva de reapresentação de Valdivia tenha ocorrido no mesmo dia, horas mais tarde, na Academia de Futebol. Foi igualmente difícil conter o ceticismo na parte da tarde. Contudo, o sentimento que se opunha à descrença, no caso da entrevista do Mago, era a sensação de que ali estava um mero prestador de serviço. Após tantos anos de idas e vindas, Valdivia murchou aos olhos do palmeirense. Desceu do status "ídolo" para o patamar "jogador". Hoje, o cidadão Jorge Valdivia é apenas mais um, independentemente do dinheiro que recebe do clube.

Do ponto de vista prático, no entanto, isso quer dizer muito pouco. Marcos Assunção, convenhamos, já não é um atleta top de linha para o futebol. Aos 36, o próprio reconhece já não correr como fazia aos 25 - embora acredite compensar isso com excelência cobrando faltas e escanteios. Os números corroboram o ex-camisa 20: 145 jogos, 31 gols, 24 assistências diretas - não entram aqui gols que saíram após escanteios cobrados por Assunção que viraram gol após bate e rebate na área, por exemplo. Por quase três anos, Assunção foi a arma mais letal do Palmeiras. Quando não, a única. Se alguém não tem culpa de o Palmeiras ter ficado Assunçãodependente, esse alguém é o próprio Assunção, que estava apenas fazendo o dele.

Indiretamente, um dos jogadores que mais contribuíram para o mito surgido em torno de Marcos Assunção foi o próprio Valdivia. Sua "oniausência" nos último triênio foi um dos principais motivos para o time tornar-se dependente da  bola parada do ex-capitão. O Palmeiras nunca pensou, de verdade, em contratar um meia para jogar mais e ajudar a equipe e organizar o meio-campo. Sempre na expectativa de voltar a ter o chileno -  machucado, suspenso ou convocado para a seleção de seu país. Também, devido ao gasto mensal proporcionado por Valdiva, na ordem de R$ 1,2 milhão, entre salários, direitos de imagem, luvas e parcelas de financiamento. Assim, o Verdão ia se virando com o que tinha. E o que tinha de melhor eram as bolas chutadas por Assunção.

Na coletiva de Valdivia, o que mais chamava a atenção era o nervosismo do meia. Irritado, embora reconhecesse o erro de não ter avisado ninguém sobre os dias a mais que iria ficar no Chile, ele estava mais preocupado em enfatizar que havia trabalhado por conta própria nas férias - com intervalos para cantar "Adeus Tia Paty", vale frisar. E ficava repetindo a palavra "férias", como se quisesse, sei lá, um salvo conduto instantâneo. Os próprios médicos do Palmeiras já reconheceram que o trabalho a que Valdivia se submeteu na clínica chilena fizeram-no adiantar duas semanas de preparação. Mas isso não apaga três anos de reiterados erros, nem anula o atraso na reapresentação.

O fato é que a realidade do Palmeiras, daqui em diante, será com Valdivia, já que o Palmeiras não consegue negociá-lo, apesar do esforço coletivo para que isso aconteça em breve. E sem Assunção, pois os conselheiros do clube avaliaram que um aumento de 30% para o capitão era injustificado. E, convenhamos, mesmo que Assunção o mereça, o timing não lhe era favorável. Clube trocando de diretoria, departamento financeiro mandando no futebol... Era muito difícil que o jogador conseguisse um aumento neste momento.

Por outro lado, sem dinheiro para contratar, sem gente hábil para negociar, ou um cacife alto, devido ao rebaixamento para a Série B, o Palmeiras precisa do Mago pelo tempo em que ele ficar no elenco. O chileno jura que vai jogar em 2013, que está focado. Disse que fez o que fez no Chile pensando em si mesmo. Nem mesmo quis mandar uma mensagem para os torcedores. "Não tenho nada a dizer à torcida", cravou. Já Assunção, saiu-se com essa. "Estou saindo sem querer, e faço questão de agradecer o carinho do torcedor", disse o ex-capitão.

As diferenças de postura e discurso tornam um pouco mais fácil entender a briga que os dois jogadores tiveram no final do ano passado. Em termos práticos, porém, amor muda pouco o placar. É melhor um Assunção "palmeirense", mas com dificuldade de se locomover em campo, a despeito da precisão com a bola parada? Ou um Valdivia egocêntrico, mas jogando bola? O tira-teima virá com os resultados futuros. Assunção já escreveu a história dele no clube. Valdivia ainda pode recolocar a dele no rumo certo.






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