sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Filme: "Topografia de um Desnudo" - Protagonista sem pegada é problema de filme corajoso


Topografia de um Desnudo (2009) é um caso bastante curioso. Pois mesmo contando com atores dos pesos de Lima Duarte, José de Abreu, Gracindo Júnior e Ney Latorraca em seus créditos, tem justamente na atuação seu maior defeito. Problema que se torna ainda mais difícil de se aceitar quando se sabe que a diretora Teresa Aguiar foi professora de interpretação pela Universidade de São Paulo (USP).

O problema, no entanto, pode ser delimitado na atuação frouxa da protagonista Abel, vivida por Ariane Porto - que também produziu e roteirizou o longa, com base em peça do chileno Jorge Díaz. Sem pegada para ser o fio condutor da trama, Ariane é pouco convincente na pele da jornalista de colunas sociais que se depara, ao acaso, com um mendigo morto, o que a motiva a embarcar em uma investigação lone ranger pela verdade.

Topografia tem como pano de fundo a "operação mata-mendigos", levada a cabo pelo hoje extinto Estado da Guanabara, no início da década de 60, sob a gestão Carlos Lacerda. Segundo relatos, o objetivo do governo era promover uma assepsia com vistas a arrumar a casa para visita da Rainha da Inglaterra à cidade do Rio de Janeiro.

Filmado no nascente pólo cinematográfico de Paulínia, no interior de São Paulo, Topografia é honesto e bem-intencionado. Mas além das atuações de Ariane, traz outros defeitos. Um deles está na própria cidade, que também não tem pegada para se fazer passar pela Cidade Maravilhosa nas cenas externas - o Rio só aparece no filme em cenas de arquivo e externas sem participação dos atores - obstáculo que a cuidadosa direção de arte não foi capaz de driblar. A até bem cuidada fotografia digital acaba por ressaltar esse defeito, que talvez pudesse ter sido atenuado em película.

Algumas marcas de passagem, como a reiterada exibição de uma cena com rotativas de uma gráfica, que sempre precede a exibição de uma notícia de jornal na trama, também seriam perfeitamente dispensáveis, tal qual a equivocada trilha sonora incidental.

Mas Topografia de um Desnudo também tém méritos. Além dos já citados atores, o filme conta com uma participação da excelente Maria Alice Vergueiro, que para quem não conhece é aquela tiazinha maconheira do curta Tapa na Pantera (2006), de Esmir Filho. O belo trabalho de figurinos, bem como algumas seqüências de realismo fantástico, também trabalham em prol do corajoso filme, que se não é memorável, também não pode ser chamado de esquecível - especialmente por sua temática intocavelmente atual em vésperas de realização de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos no Brasil.

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