sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Filme: "À Procura de Eric" - Eric se encontra


"O Cantona é um bom jogador?". Minha grande amiga Fátima Gigliotti, ao contrário do que sobrenome lendário para aqueles que gostam de futebol e jornalismo poderia supor, não acompanha o esporte muito de perto. Mas ali, de frente com a tela do Auditório Ibirapuera, à parte do filme, Fátima quis saber se, no campo, Eric Cantona justificaria a deferência que o diretor Ken Loach lhe empresta em "À Procura de Eric" (Looking for Eric), exibido na abertura da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Francês de Marselha, Cantona parou de jogar há mais de dez anos. Fez seu último jogo oficial em 1997, pelo Manchester United, clube que o apontou como seu jogador mais importante no século XX, no qual jogou por apenas 5 anos. Nada pouco para quem teve como colegas de cédula Matt Busby, George Best, Bobby Charlton e, porque não dizer, David Beckham, o maior fenômeno de marketing na história do futebol de bola redonda.

No United, Cantona viveu os inícios da era de ouro da Liga Inglesa e da supremacia global dos Reds. Pouco antes do francês, desembarcou na cinzenta Manchester, onde ainda está, o escocês Alex Ferguson, hoje Cavaleiro da Rainha, que ajudou a fazer do então segundo time mais importante da cidade um dos mais importantes do planeta. Por outro lado, Eric não teve a sorte de seu compatriota Zidane, já que os azuis tiveram pouco destaque no tempo em que ele e sua gola levantada ditavam o compasso da Seleção Francesa.

Cantona também não esteve no jogo que fez o primeiro time inglês campeão mundial de futebol em 1999, quando o United bateu o Palmeiras em Tóquio. Mas nem precisava. Pois Cantona esteve outras 140 vezes vestido com a camisa dos vermelhos, ganhando jogadas na força, fazendo gols com técnica, enlouquecendo a torcida com gritos, e todas as combinações, lógicas ou não, que as 12 palavras - de grito para trás - puderem formar. Com seu ar superior e uma fúria quase bestial, Eric Cantona era a síntese do que muitos fãs esperam de seu ídolo no futebol: falível, apaixonado e decisivo. Ao ponto de a classe operária inglesa ter ido ao estádio, por muitos anos, com a bandeira da França para saudar seu King Eric, entoando uma impagável Marselhesa em inglês, cujos últimos versos dizem "Cantona, Cantona!"

Em "À Procura de Eric" (cujo título também funcionaria sem a crase), mais do que Édson e Pelé, Cantona é três, embora seja sempre o mesmo. Na tabelinha esquizofrênica com seu homônimo Eric Bishop (Steve Evets, impecável), Cantona (lui-même, como dizem os créditos) é a quintessência da coragem que Bishop almeja, do ímpeto vencedor, da auto-confiança desproporcional, que se não é justificada em resultado, basta-se. Cantona também é icônico da memória que o personagem tem de sua convivência com a filha Sam, que largou ainda bebê para ser criada pela esposa que abandona, pois era nas arquibancadas para as quais a levava para ver os jogos de Cantona que pai e filha conviviam. Mas não há como não citar o terceiro lado de Cantona que o filme traz, que é o Cantona de verdade, a pessoa fora das telas.

Seja fumando maconha, bebendo do gargalo ou citando ditados populares em um inglês orgulhosamente afrancesado, o Cantona que vemos na tela nos parece uma evolução muito plausível do verdadeiro Cantona, que jogava futebol com tanta beleza quanto raiva, do cara que foi capaz de agredir um torcedor do modesto Crystal Palace com um pisão no rosto que o tirou de campo por quase um ano, mas que chorava nas derrotas mais doídas de sua equipe.

Méritos a Ken Loach e ao roteirista Paul Laverty, velhos parceiros, que em um dos filmes imperdíveis da Mostra desse ano, trouxeram um Cantona completamente verossímil ao público. Mas méritos muito maiores ao próprio Cantona, que nessa era em que viver é atuar - seria uma era ou será a regra? - soube sempre representar um personagem também muito verossímil. Sim, Fátima, Cantona foi um enorme jogador, cujo maior mérito foi ser o que era - nada fácil, se estivermos falando de Eric Cantona.

5 comentários:

  1. Não conheço o Cantona, mas se você ta falando que ele joga bem, eu acredito =)* hehe

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  2. Belo texto Diego! Vou visitar, sempre que possível o Bonasera!
    Abraço,
    RFante.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Diego, comentário mais orientado, desta vez de quem viu o filme, hehe...
    1.Eric, o Cantona, é também um bom ator, boa surpresa!
    2. Eric, o carteiro, mas muito mais que isso, dá um tom de realidade ao filme, que por isso mesmo é imprevisível.
    3. Tomara que saia logo no circuito!!!

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  5. KeniaArchas,

    "À procra de Eric" estréia hoje, 5/11, no Rio e em São Paulo.

    Abraços.

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